Teatro Amazonas

Quem passa pelas ruas centrais de Manaus não tem como fugir a uma visão ao mesmo tempo surpreendente e agradável. A surpresa é causada pela forma da cobertura de um edifício público, uma cúpula inscrustada no meio de telhado composto por telhas inclinadas. A sensação agrada, pelas cores com que se apresenta essa cúpula, em si mesma a razão de orgulhosa referência pelos habitantes do lugar: todos os materiais que a compõem vieram de países europeus.

Mesmo sem entrar nas amplas dependências daquela construção imponente, o Teatro Amazonas, o visitante poderá dizer que pelo menos viu, de fora, um dos monumentos-símbolos de um pedaço da história da Amazônia. E, por certo, do país. Se visitar o interior, não poupará adjetivos ao talento de artistas estrangeiros e nacionais que trabalharam na obra.

Erguido no final do século XIX, o Teatro Amazonas é, frequentemente, comparado a outras casas de ópera que enfeitam importantes cidades européias. Não causa espanto a semelhança que alguns estudiosos estabelecem entre a obra inaugurada, em 1896, pelo então governador Eduardo Ribeiro, com o Scala de Milão e o Teatro de Ópera Garnier, de Paris.

Belém, a capital do Pará, contava com obra de igual destinação desde 1878. Nesse ano, foram abertas as portas do Teatro de Nossa Senhora da Paz, para a apresentação de um dos 126 espetáculos encenados em seu palco, de fevereiro a dezembro.

Não foi somente esse importante prédio público deixado pelo “período áureo da borracha” na capital paraense. O Mercado Municipal do Ver-o-peso, a sede da Intendência Municipal, o matadouro do Maguary são algumas outras edificações mandadas erguer pelo poder público, às quais se juntaram prédios de propriedade de particulares, como os palacetes Pinho, Bibi Costa e Bolonha, apenas para ficar nas construções mais notórias.

Também em Manaus se testemunhava semelhante interesse por dotar a cidade de equipamentos urbanos à altura dos anseios de parcela da sociedade local. Passara-se, já, a primeira fase do conhecido “período áureo da borracha” (1). Foi a fase que o autor Mesquisa Otoni chamou de instalação, quando se introduziram diversos melhoramentos na cidade. As cinco décadas serviram ao “aformoseamento” de Manaus, como costumavam afirmar os governantes de então. Vias públicas foram abertas, igarapés aterrados, praças construídas.

Na segunda fase (1892-1900), consolidou-se o que o referido autor chamou de vitrine — espécie de exposição capaz de atestar que a urbe estava apta a atrair a mão-de-obra necessária à exploração da borracha, ao mesmo tempo que os capitais estrangeiros indispensáveis ao empreendimento.

É nesse contexto que se ergue, em pleno centro da capital amazonense, uma das mais importantes casas de espetáculo do Brasil.

Identificar as razões pelas quais o Teatro Amazonas e, como ele, tantos outros produtos do engenho e do talento humano foram construídos, extrapola o âmbito do amor às artes ou do apreço deferido à cultura. Essa é tarefa que tem muito mais a ver com a realidade socioeconômica experimentada pelas cidades, em tudo quanto o talento e o engenho humanos têm deixado sua marca.

Daí a importância de analisar o interesse dos governantes de então, em dotar as cidades mais importantes de equipamentos urbanos tão suntuosos quanto o são os dois teatros, hoje colocados dentre os mais belos do mundo.

Importa verificar porque profissionais respeitados em seus países de origem, como De Angelis, têm seus nomes inscritos no rol dos que contribuíram para enriquecer o patrimônio arquitetônico e cultural da Amazônia.

Igual importância assume a relação entre as construções imponentes das quais o Teatro Provincial, depois chamado Amazonas, é o mais conhecido exemplo, e o sentimento da sociedade local, à época.

A obra, em sua apresentação material, tem interessante significado, sem que isso dispense esforço por compreender a sociedade em que ela se insere e de cujos valores é inarredável expressão.

Dizer que o Teatro Amazonas é um belo monumento e tratar das idas-e-vindas que caracterizaram o processo de concretização de sua estrutura e conformação física é indispensável. Compará-lo a outros teatros e casas de espetáculo que ornamentam cidades européias e apresentar o rol de nomes e companhias artísticas que se exibiram em seu belo palco, igualmente, não pode ser descartado pelos estudiosos. Há, não obstante, outros ângulos em que o mesmo fato pode ser apreciado.

Disso resulta o enfoque que tentaremos dar ao presente texto. Da importância e significado cultural do Teatro há de dar notícia especialista no assunto.

A mim caberá, por eleição, a tentativa de apontar peculiaridades sociais e econômicas que explicam a construção, em meio à floresta amazônica, do belo edifício erguido na praça de São Sebastião, fronteiro ao monumento à abertura do portos da Amazônia — em si mesmo outra obra digna de estudo e compreensão. Não será por acaso que o Palácio da Justiça, vizinho do Teatro, é outra obra denotadora do clima vivido em Manaus, àquela época.

Importa pouco o debate entre a data de descoberta do processo de vulcanização, por Charles Goodyear. Se 1839 (2), ou 1842, como Mesquita atribui ao Barão de Sant’Anna Nery. Ou, ainda, 1844, como o afirma Garcia (3).

Resta dizer da importância que a descoberta da vulcanização atribuiria ao valor da borracha, extraída desde os tempos das drogas do sertão, mas valorizada agora pela nova tecnologia.

Irrelevante fixar entre 1900-1910 (1) ou 1870-1910 (4) o período em que a economia da borracha predominou na Amazônia. Mas interessante é lembrar a “fase em que foram engendradas condições econômicas, que fizeram eclodir, nas duas capitais de estados amazônicos, versões locais da belle époque europeia”. (4).

Como se tem dito, o avanço tecnológico determina consequências que se estendem da área produtiva a todos os demais setores da sociedade. Há quem afirme, inclusive, que a toda substituição de uma fonte de energia correspondem substanciais alterações na vida das pessoas, seja nos aspectos materiais, seja nos valores que orientam a conduta dos contemporâneos dessa substituição.

No caso específico da borracha, os negócios que sucederam a descoberta do processo de vulcanização engendraram na Amazônia um novo padrão econômico. Instalou-se, desde então, um tipo de relação de produção movido por intenso intercâmbio entre aquele pedaço de Brasil, embrenhado na maior floresta tropical do planeta, e as principais metrópoles europeias.

Mais borracha era produzida, mais era exportada, maior era o intercâmbio com outras nações, intensificavam-se as trocas.

Se, do ponto de vista meramente econômico, a borracha sustentava toda uma rede de negócios, há aspectos sociais que não podem ser negligenciados.

A economia regional, assim estimulada, impulsionou as capitais da Amazônia, Manaus e Belém, à condição de centros de grande importância internacional. Era como a globalização afetando a região, avant la lettre.

Enquanto, no ermo da floresta, seringueiros desde a madrugada percorriam suas “estradas”, ferindo a hevea brasiliensis e dela extraindo a valiosa seiva, outros agentes desempenhavam papel indispensável à configuração desse novo modo de produção. Os aviadores intermediavam os negócios, de tal sorte que lhes cabia fornecer aos homens da floresta os gêneros de primeira necessidade, em troca de certa quantidade de seringa. Em contrapartida, recebiam o resultado da faina diária e cansativa dos seringueiros, que repassavam às casas exportadoras. Aos que controlavam o setor cumpria estabelecer os nexos com os importadores dos outros países.

Bancos e casas aviadoras, assim, ganharam relevo antes impossível. Praticamente em torno deles girava toda a economia da Amazônia, o seringal como pano de fundo. Financiavam-se as atividades produtivas, com o que ganhavam os aviadores e os bancos, da mesma forma com que a exportação era financiada. Mais uma oportunidade de polpudos ganhos para os estabelecimentos bancários, além dos que iam ter aos bolsos de exportadores e importadores estrangeiros. Aos seringueiros restavam dívidas crescentes, a cada nova safra. Por isso, foram poucos os que fugiram à condição de devedores vitalícios dos seringalistas e aviadores.

A história do capitalismo na região amazônica brasileira não pode ser contada, muito menos compreendida, se perdidos de vista os elos de uma cadeia frequentemente revisitada, ao longo dos anos de renascimento econômico.

Compreender como funcionava a sociedade, quaisquer que sejam suas peculiaridades, ajuda a explicar muitos fenômenos situados para além das ciências sociais. Por isso, o “aformoseamento”, a vitrine e a modernidade características da ação de governantes (Pereira Passos, no Rio de Janeiro; Antonio Lemos, em Belém; Eduardo Ribeiro, em Manaus, como o fora o barão Haussman, em Paris), se traduzem seu ethos nas obras referenciais já mencionadas, também trazem nos valores embutidos no processo a explicação para sua ocorrência.

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